terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A valsa



"Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!"


Casimiro de Abreu

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um conto de natal - Miguel Torga





"De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.


E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.


Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.


E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...


Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!


Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.


Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.


Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.


Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.


Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.


Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.


Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.


Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?


Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?


A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.


E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.


— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José."


Miguel Torga

Que esse singelo conto envolva voces no verdadeiro sentido do dia de hoje.

Feliz Natal !

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Tchau Sophos, Tchau Convênio !


Post de um texto escrito na minha agenda de contos e poemas pessoais =D

Por isso a discordância de datas...

Amanhã é o ultimo dia de aula no Sophos.

E isso me remete ao primeiro dia aqui. Há três anos...

Saio daqui diferente, com certeza, crescida... Um pouco mais madura...

Saudades da Tayná que aqui entrou?

Um pouco. Ela era mais gordinha, mais ingênua, mais incompleta... Mais infantil... Mais durona e difícil de se dar.

Posso dizer que minha relação com este colégio foi de amor/ódio, "odeio" o Sophos com todas as minhas forças, mas no fundo sentirei saudades, e meus olhos se enchem de lágrimas ao ato de lembrar meus dias aqui... Pequenas lembranças.

Assim como foi no Cipp...

Porém agora é diferente por detalhes, o colégio acabou e a universidade começou... (praticamente). Uma nova fase da vida...

No Sophos eu criei novos amigos, novos irmãos, novos "amores"... Acumulei dores e descobri gostos e aptidões latentes, como escrever, e ensinar.

Sophos me mostrou que posso se forte, principalmente neste ano que termina, um ano difícil, muito difícil.

Mostrou-me que posso crescer sem medo da vida.

Abriu-me os olhos, não da melhor forma, para as injustiças do mundo, e que devo "lutar pelo que acredito, sempre!”

Deixo a este colégio o meu "obrigado"... Por tudo. Meu "perdão" por algo que fiz de errado, e o meu "Adeus"! Colégio que tanto "odiei”.

Escrito em 16 de janeiro de 2010 , no colégio sophos ás 12:30/12:45


domingo, 5 de dezembro de 2010

São Só Garotos...


"Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo
Então são mãos e braços
Beijos e abraços
Pele, barriga e seus laços
São armadilhas e eu não sei o que faço
Aqui de palhaço, seguindo os seus passos."

Leoni

O que sou.

Uma fortaleza de ferro,
Que esconde dentro de si,
As maiores fraquezas do homem:
A dor,
Que me prova que vivo, e vivi.
O medo,
Que me impede de fazer muita coisa.
A solidão,
Sempre ao meu lado.
A saudade,
De algo que foi, ou poderia ter sido.
A frustração,
Por uma vida... Que não é.
O orgulho encobre a tudo,
O sorriso disfarça , distrai,
Desatentos do mundo perdido.

Olho nos teus olhos,
e percebo o vazio...
De onde antes sonhei
que poderia ser o meu mundo.
Teus olhos nunca mais verei,
Teu cheiro nos meus sonhos sentirei.
Tuas faces meu tato esquecerá,
Minha lembrança... Você se livrará.
Se já não o fez.

No fundo , No fundo, ainda sinto tua ausência.
Nesses momentos que a saudade toca conta de mim,
E me leva a pensar... E se?
E se tivesse dado certo nos dois?
E se Pudessemos ter sido felizes?
E se...
A vida tivesse me levado a um rumo diferente?
Mas, vai em frente, vive.
E nos dois? Não existe, nunca existiu.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Bebê que curte reggae.

<a href="http://video.br.msn.com/?mkt=pt-br&vid=2d8f74c9-6a14-4cb0-a8aa-d8b15e1ae1ec&from=pt-br&fg=dest" target="_new" title="Bebê curte Bob Marley">Vídeo: Bebê curte Bob Marley</a>


Positive Vibration , pequeno seguidor de jah . *-*